segunda-feira, 17 de junho de 2013

F L O R E S!!!!! A arma mais letal do Planeta Terra!

A maravilhosa manifestação "pacífica"




Para necessariamente contra a Polícia.


Uniforme representa Ordem e Respeito, e eu fui educado a
respeitar.
Eu corrigi minha irmã dias atrás quando ela me disse "a gente deve
respeitar quem exige respeito" para "a gente respeita quem demonstra respeito". Mal sabia eu que a vida esfregaria na minha cara a dura realidade daquilo que eu acabara de verbalizar.
Era uma bela Quinta-feira, e eu tinha de trabalhar, mas a linha que pego pra trabalhar estava parada. Poderia eu pegar 3 ou 4 ônibus a fim de ir para o trabalho? Sim, mas como eu trabalho em diferentes partes daquela linha, eu dependeria não mais dos 15min de trem, mas dos 45min de ônibus, luxo que eu não possuía. Tive de cancelar meus trabalhos do dia. O que me restou? Ficar em casa escrevendo, lendo e estudando.
Fui chamado para essa tal de "Manifestação Pacífica" que teria início em frente ao Teatro Dom Pedro, mas eu me recusei a ir. Por que? Oras, preciso explicar? Manifestantes anarquistas bocós invadindo espaços privados só para mostrar que são pobres e não tem emprego? Não, obrigado pelo convite.
Fiquei em casa. Cocei. Dormi. Acordei e comi. Liguei o Face e li algumas manchetes sobre o que REALMENTE aconteceu na Manifestação dos dias anteriores. Pensei. A cachola começou a processar informações. Descansei o cérebro em banho-maria de informações de fontes não tão confiáveis.
Li mais. Absorvi mais. Fiquei curioso, e foi aí que tudo começou.
Acabei despertando uma curiosidade de descobrir por mim mesmo o que REALMENTE era essa tal Manifestação. Eu ainda achava que o povão ía todo se reunir xingando partidos (odeio Partidos, eu gosto é de Solução com gente inteligente tomando as rédeas que sempre façam o melhor por aqueles que os colocaram no comando), apedrejariam bonecos enormes, íam ficar berrando no
meu ouvido sobre "VOSSÊ TEIN QUE LUTÁ PELUS ÇEUS DIREITU!!!".
Sério, eu sou um cara banhado em dinheiro desde que nasci, então a minha percepção era uma bem particular (que viria a se dissolver muito em breve).
Fui. Acabei chegando às 17h40. A Polícia havia pedido para todos os Manifestantes saírem de dentro do Metrô Anhangabaú, e assim eles fizeram.
Alguns passinhos pra trás e simples. Lá nos encontramos e de lá fomos para o Teatro. Andamos, vimos policiais de colete amarelo encostados nas paredes hiper de boa lá com a gente, fiquei impressionado com a quantidade de gente em volta dos policiais, e nenhum policial/manifestante machucado.
Achei linda aquela percepção e pensei: "Nossa, eu sempre via pancadaria quando essa água e esse óleo se juntavam, que coisa!". Continuei andando em direção à concentração. Cheguei lá em menos de 20min. 18h00 eu já estava lá e o pessoal estava todo unido, sorridente, feliz por estar ali. E eu lá, perdidão com medo de alguém me roubar o iPhone.
Estranhei por ninguém ter trombado em mim pra me assaltar, e todos aqueles que trombaram em mim, olharam de volta e disseram: "desculpa, cara". Eu não escuto isso nem dentro das empresas onde vou todo arrumadinho!!!! Fiquei abismado, em
choque com tamanho respeito.
A concentração começou a tomar proporções que eu não imaginava. Pensei com meus botões "uns 80 sem-ter-o-que-fazer estarão lá brigando pelo Direito do Brasil. HAHAHAHAHA retardados e sem noção, eu devia era tá em casa assistindo seriado que eu ganharia muito mais, tem até bolo em casa", mas
não éramos em apenas 80, não éramos apenas em 800, e não éramos apenas 8.000. A contagem foi estimada por baixo em 10.000 (números redondos ajudam a galerinha a lembrar bem). DEZ MIL pessoas lutando pelo Direito dos outros.
Eu engoli seco o meu preconceito.
Começamos a andar, a passeata estava linda, bem organizada, as pessoas desviavam o senhor e o carro dele de recolher lixo das ruas. Um moço até levantou uma placa de "Vendo Ouro ou Prata" para conseguir alguma coisa daquela concentração tão gostosa e animada. Pessoas saíam de seus apartamentos para danças nas janelas, e não para xingar. O ritmo era tão gostoso que cativava a todos que nos ouviam. Eu fiquei pasmo com tamanho respeito por todos os lados. Eu comecei a entender melhor a ideia da Manifestação.
Caminhávamos BEEEEEEM devagar, sem atropelar ninguém, sem entrar por ruas já não previamente bloqueadas pela Polícia de Trânsito. Sério, era lindo ver TANTA gente caminhando por onde já havia sido previamente combinado por onde andaríamos. Tudo dentro da Lei, tudo respeitoso e harmonioso.
Fantástico, seria o que eu diria para descrever tal evento grandioso.
Andamos e andamos, pessoas dançavam nas janelas, pais colocavam seus filhos em cima de seus ombros, familiares se abraçavam, casais se beijavam, a galera bem educada, se portando de forma apreciada por qualquer ser humano.
Parávamos - para que a Manifestação não se esticasse muito entre cabeça e cauda - e continuávamos quando a concentração realmente se concentrava.
Filmei tudo. Queria eu ter tudo aquilo registrado porque eu AINDA não acreditava que tanta gente desconhecida se respeitaria ali por um ato nacional. Eu tinha ainda 3 pés atrás quanto à educação dos manifestantes (eu esperava ver a máscara dos manifestantes cair para ver que eles realmente eram vândalos, agressores e mal-intencionados, mas tava difícil já porque eu estava esperando por longos 70min já e nenhuma máscara dentre os 10.000 caía, ninguém xingava, ninguém cuspia, quem trombava pedia desculpa e dava abraço até, tava bem complicado achar um errante ali, mas
não perdi a fé de que alguém apareceria, que máscaras cairiam).
Chegamos na Praça da República querendo subir a Rua da Consolação. E foi ali que as Máscaras caíram.
Paramos, concentramos, nos unimos e por ali ficamos gritando: "Oooooooo, o povo acordou!!!! Ooooooooo, o povo acordou!!!!" Muitas pessoas tiravam fotos, mas ninguém se mexia, não dava. A Polícia lá longe (eu diria uns.... 100 metros? Mais? Não sou bom de cálculo quando se passa de 50 metros) estava fazendo uma barricada enorme na Rua da Consolação para que nós não
subíssemos.
Ué? Não era por ali que íriamos subi...... POFT! Alguém começa a correr desesperado pela direita traseira empurrando todo mundo.
Eu logo pensei "BADERNA! Achei!", e logo vejo o que realmente está acontecendo. A Tropa de Choque avançou nas pessoas que seguravam as flores!


F L O R E S!!!!! A arma mais letal do Planeta Terra! A Tropa de Choque avançou com Escudos e Cacetetes por trás da gente, encurralando a Manifestação Pacífica na Praça.


Pensei comigo:
"é AGORA que a gente revida com pedras e paus, quer ver?"
O que aconteceu? O povo se uniu, pegou quem tava caído no chão e começou num coro lindo "SEM VIOLÊNCIA! SEM VIOLÊNCIA!". Sério, se eu tinha alguma vergonha na cara, ela entrou pelos meus ouvidos, por minhas narinas e se escondeu, junto com o meu preconceito e ausência de informação. Eu estava no meio da Manifestação esperando ver a Manifestação se tornar Vândala, e o
que eu recebo como recompensa? Amor, pedidos de compreensão, tentativa de conversar com a Tropa de Choque.FFoi ali que a MINHA máscara caiu, que os meus olhos abriram, que a minha Realidade se tornou uma só com a dos Manifestantes. Eu era um Boyzinho, um  coxinha, um Topzinho esperando ver os manifestantes virarem agressores, mas em troca eu encontrei pessoas humanas dispostas a se sacrificarem por um
bem maior. Não consigo muito explicar em palavras o que eu senti, apenas consigo dizer que tudo aquilo que me foi pintado pela Mídia da TV havia perdido sua tinta.
Conversando com o pessoal sobre o que fazer, eles disseram: "Unidos, galera! Unidos!". Nos unimos, e continuamos "ô motorista, ô cobrador, será que seu salário aumentou?" Palavras pesadas, não? Merecidas de uma boas...


BOOOM!!!! BOOOOOM!!!!! BOOOOOM!!!!! BOOOOM!!!!!!!!


Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas no meio da gente, na nossa
frente, atrás da gente! PRA QUÊ???????? Não tinha uma rota que seguiríamos
para depois irmos embora? Não é assim com a Marcha de Jesus? Marcha das Vadias? Parada Gay? Marcha dos Ciclistas? Por quê com a gente tinha bomba?
Cadê o roteiro, gente?????? Pra que isso?????
Eu não passei vinagre em lugar algum. Eu fui com a cara ao tapa e disse "Não, se é pra cheirar essa merda, eu vou cheirar, que venha a Realidade".
Senti o cheiro, chorei pra caralho, meu nariz escorreu feito uma cachoeira, minha boca secou, a ânsia de vômito bateu e eu quis morrer ali de tanto amargo no fundo da boca. Entendi como funcionava aquele produto químico, daí sim, fiz o que podia fazer. Destapei o nariz, esfreguei as lágrimas, dei meus pulos e o efeito passou. Não vomitei, não passei mal, nada me aconteceu. Olhei em volta e....


Gente passando mal
Gente caída no chão
Gente sem poder abrir os olhos
Gente desnorteada
Gente vomitando


Precisava???????????????EEu fui ajudar uma menina que estava caída no chão (já que eu tinha me perdido do meu grupo). BOOOOOM!!!!!! A menina que estava de pé na minha frente caiu dura. A testa dela sangrando loucamente enquanto ela se esperneava no chão. Só pude concluir que acertou uma parte bem irrigada do rosto dela, mas eu não pude ajudá-la porque meus conhecimentos médicos são limitados, então fui ajudar quem dava. Peguei a menina do chão, tonteada e perdida, limpei as narinas dela e limpei os olhos dela. Ela levantou
perdida, agradeceu e foi ajudar mais alguém. O meu queixo "caiu" ali ao ver aquela ação. Eu pensei que a menina ia correr pra longe, mas não, ela ficou e lutou.
Eu encontrei o meu grupo de volta e os ajudei como pude. A manifestação fez o quê? Pegou pedras? Pegou pau? Desenvolveu super-poderes que poderiam ameaçar a vida daqueles policiais bem protegidos e armados? Não.
A gente se uniu novamente e berrou aos quatro ventos:
"CHEGA DE VIOLÊNCIA!!!! SEM VIOLÊNCIA!!!"


A Tropa de Choque chegou com reforço, e foi aí que tudo se perdeu. Uma bomba caiu no meu pé, e em frações de segundos a minha vida passou na frente dos meus olhos enquanto eu só via aquela coisinha estranha soltando gás pra cima de mim. Respirei fundo, protegi os olhos e puxei as pessoas pra longe da bomba enquanto eu tentava chutá-la pra longe.


BOOOOOOM!!!!! BOOOOM!!!!! BOOOOM!!!!! BOOOOM!!!!!


Mais e mais bombas foram lançadas em cima da gente, e mais e mais pessoas se separavam do grupo, não tinha como se manter unido ali. A Manifestação se fragmentou.
Eu desci para a Avenida (era a 23 de Maio ali? Não me lembro, tinha muita fumaça no meu cérebro), onde fiquei com a pior parte da Manifestação: os "Vândalos". Foi ali que eu aprendi a defender a Realidade, e não os fatos impostos garganta abaixo.
A Polícia vinha de carro atirando borracha na gente, bem estilo joguinho de tiro, sabe? Você vê uma coisa se mexendo, você atira. Simples assim. O que o pessoal pensou em fazer? Debilitar a Polícia de seus carros. Fizeram barreiras nos chãos para que a Polícia não passasse mais brincando de tiro-ao-alvo na gente, e barricadas foram feitas.
Concordo com as barricadas? Não. Concordo com brincarem de atirar na gente por diversão? Menos ainda. Fica ao seu critério achar se deveríamos ou não ter feito as barricadas.
A Polícia ficou a pé, igual a gente. A moça do meu lado estava ali de boa quando tomou um treco na cabeça. O cara com ela (possível namorado) assustou e berrou: "EU NÃO TÔ NA BRIGA, MERDA!!!!" A Polícia não liga muito porque nessa hora é muita ameaça que representamos, sabe? 1 camiseta, 1 cueca, 1 calça, 1 par de tênis podem ferir mortalmente um policial protentemente armado e protegido. Cuidado.
Por vezes e vezes pensei: "quero ir embora, a polícia tá metendo bala em tudo quanto é gente, tá passando por cima de latões, por cima de lixo, por cima de tudo, e depois vão falar que fomos nós!!!!! Eu quero ficar vivo pra poder viver o dia de amanhã, mas..... mas.... por que eu não vou? Por que eu fico e luto? Por quê????" Eu não entendia ainda muito bem o porquê da minha vontade de ficar e defender um ideal. Era difícil, pra mim, acordar em tão pouco
tempo, sabe?
Subi a Rua da Consolação ao lado da Cavalaria Policial depois que fomos dispersados. Pensei "acabou". Subi e lá encontrei os repórteres gravando o que o pessoal - indignado - dizia para a TV. Pensei "estou seguro, ninguém jamais faria qualqu....."


BOOOM!!!!!!!!!


Câmera cai. Bomba no meio do povo. Dispersão. Medo. Liberdade de expressão  ::: zero.
Meu mundo caiu ali. Fiquei sem palavras. A Polícia atirou bomba em pessoas que não tinham nenhuma arma que não a voz. Seria o poder do povo tão forte assim???
Subindo a Consolação, um milagre. A Manifestação se reencontrou! Estávamos em 2, depois em 100, depois em 1.000! O restinho da Manifestação que ainda lutava por Direitos estava ali!!!! UFA!!!!!! Ninguém desistiu tanto assim!
Nos unimos e berramos "Oooooo, o povo acordou!!!" várias vezes, meio entristecidos, mas contentes de termos encontrado outros guerreiros pelos Direitos alheios.
Se tinha uma coisa que aquelas bombas tinham feito era ter me instaurado um medo interno gigantesco, mas.... um presente apareceu depois de alguns metros. Um eco vinha de uma rua estreita, pequena... Não dava pra entender muito bem, mas era muito barulho. Pensei "POLICIA, CORRE, GENTE!!!".


Não era a Polícia.


Eram os outros 4.000 que havíamos perdido lá atrás na República! Do nada, da minha direita, vem descendo mais uns 3.000!!!! O grupo INTEIRO estava todo reunido!!!! A sensação de libertação do medo passou num instante assim que eu me dei conta de uma única coisa:
"Eles podem machucar o meu corpo, mas não posso permitir que machuquem o meu espírito. Jamais!"


  • E foi ali que eu nasci de novo. Nasci para o mundo, nasci para a Vida.Claro que aquilo estava longe de acabar pois a Tropa de


  • "SEM VIOLÊNCIA!!!".


Não sei quantas bombas foram, sério. A menina que estava a 25 passos à minha frente tomou uma bomba nos peitos. Deduzi que era quente porque ela berrava de dor enquanto aquela granadinha soltava alguma coisa que parecia ser uma massa densa de calor, vapor, queimando a pele dela, a roupa, e ela ficava desesperada aos segundos.
Válido? Pense você, mas só você, sem o auxílio da TV.
Eu continuarei lutando até que mais e mais pessoas acordem. Espero que você não me xingue, pois eu não xingo você. Eu te entendo se você está com medo, eu também estava. Você acordará no seu tempo. Ou no seu tempo...



Victor Samuel Bueno Rosa - viciado em trabalhar com idiomas, comer comida vegana, estudar de tudo um pouco a fim de ajudar ao próximo, ouvir e aconselhar, além de assistir muitos desenhos. (onde está a minha arma aí?)

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